Uma das primeiras coisas que achei importante na minha vida era que meu nome não tinha H e eu tinha um tio que era poeta e escrevia no Correio do Povo uma coluna chamada Caderno H. Eu dizia para todo mundo que era sobrinha do Mario Quintana. A poesia dele que mais gostava era Canção da Garoa: "Em cima do meu telhado, / Pirulim, lulim, lulim, / Um anjo, todo molhado, / Soluça no seu flautim".
Todos os domingos, a casa de meus avós ficava cheia de primos, primas, tios e amigos da família. Tio Mario visitava meu avô, seu irmão mais velho. Nessas ocasiões, eles conversavam, mexiam em livros e tratavam de coisas que não sabíamos ou não compreendíamos, porque as crianças andavam por tudo, menos no escritório que era o lugar deles.
Meu avô fazia um álbum sobre o tio Mario, juntando todo o material que se publicava sobre ele, e também cadernos para nós, os netos, brincarmos. Eram álbuns de figuras e quadrinhos feitos em papel embrulho. Foi com meu avô que aprendi a rimar. Uma vez ele me deu um livro bem grosso de poesia infantil, e eu li todo. Meu avô era ótimo, e o tio Mario concorda comigo.
Aos nove anos, escrevi minha primeira poesia, e tio Mario publicou no Correio Infantil do Correio do Povo. Daí eu não queria mais ser professora, nem veterinária, eu queria ser poeta e jornalista.
Depois o meu avô morreu, o tio Mario já não aparecia mais com tanta frequência e nem eu. Quando ele dava autógrafos em algum lançamento, eu ia, sempre com medo de não ser reconhecida, mas ele me olhava e dizia - "Ora viva!".
Nessa época, eu não me encontrava muito com ele, mas foi quando realmente li a sua obra. Quando mais eu lia, mais gostava. Eu havia pegado o clic de Mario Quintana.
A obra dele me assustou, e eu desisti de ser poeta. Era muita responsabilidade ser sobrinha do poeta e poeta. Quando vi, anos mais tarde, havia virado secretária de Mario Quintana, poeta do Rio Grande do Sul e do Brasil, que todos querem homenagear, com quem todos querem falar e que nem sempre está afim de ser público. Então, depois de conhecer o tio Mario, a obra do Mario Quintana, eu continuava preferindo o tio poeta.
Elena Quintana, sobrinha do poeta. Porto Alegre, setembro de 1984.
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| Elena Quintana, sobrinha e herdeira de Mario Quintana |
Fonte:
1. Quintana, Mario - Biografia - Literatura sul-rio-grandense. 2. Literatura sul-rio-grandense - Quintana, Mario - Obra completa - estudo crítico. 3. Bibliografia - Quintana, Mario I. Título II. Série.

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